Sabemos
que os medicamentos determinam um momento exato em nossas vidas. Certamente, com
um prazo de validade bem curto. É como se fosse uma bengala. Devem ser
utilizados apenas na crise. Acontece que a banalização das emoções humanas está
gerando uma teoria da Vida Medicamentosa.
Recentemente
um amigo farmacêutico, Dr. Daniel Tarcísio, e eu conversávamos sobre esse tema.
Coincidentemente, ele enviou-me um texto na mesma semana da conversa. Achei o
texto do jornal EL PAIS, tão importante que resolvi compartilhá-lo com meus
leitores. Aqui está ele, na íntegra. Espero que seja muito útil, pelo menos
para uma reflexão.
" Allen
Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e
Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças
mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado
periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico.
Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta
revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu
livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o
fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a
crescente medicalização da vida.
Pergunta.
No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de
seus colegas do DSM V. Por quê?
Resposta.
Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos
transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que
tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil
demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas
farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não
soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e
pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de
fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano,
especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e
patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.
P.
Seremos todos considerados doentes mentais?
R.
Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da
última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia:
vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me
reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas,
de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em
quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo;
e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda
me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de
diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em
transtornos mentais.
P.
Com a colaboração da indústria farmacêutica...
Os
laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se
resolvem com comprimidos.
R. É
óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos,
os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas
se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e
muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma
grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o
excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento
mágico contra o mal-estar.
P. O
que propõe para frear essa tendência?
R.
Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que
aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que
está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino
de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10%
dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico
que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte.
Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de
drogas.
P.
Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e
15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma
em cada três crianças seja hiperativa?
R.
Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil
e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no
caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos.
Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm
menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas,
aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados.
Perdeu-se o controle.
P. E
há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos
psiquiátricos?
R.
Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco
tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a
hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos
aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os
laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso
puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.
P. A
influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente
prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram
para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride
adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida.
Até que ponto esses fatores culturais influenciam?
Os
melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a
patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.
R.
Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo
de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto
prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em
suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados.
Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças,
porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar
do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para
que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento
escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as
crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez
mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do
excesso de medicação.
P.
Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que
busca o bem-estar a qualquer preço?
R.
Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos
graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela.
Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as
pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão
dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade
de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse
comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à
adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma
enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.
P. E
ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências
também?
R.
Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram
diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do
preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico
errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social
como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está
crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é
conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.
P.
Não vai ser fácil…
R.
Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25
anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos
maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança
cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para
desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos.
Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando
se conseguiu, a mudança foi muito rápida.
P.
Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a
pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que
podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.
R.
Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20
vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse
apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito
boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que
gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto
chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas
pessoas.
P.
Em que sentido?
R.
Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma
atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico
cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios
traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente
mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a
ele sejam justificados.
P. E
também será preciso mudar hábitos.
R.
Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos
de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e
irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando
vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem
problemas, tanto físicos como psíquicos. "
El
País
Muito bom o texto! E melhor - o final : o sono como reparador da saúde.
ResponderExcluirQuanto à depressão - ter ou não ter. E se não tiver, como saber? Passei por um período grande de reclusão, opressão, transtornos, buscas. Mas a verdadeira cura está em nós mesmos (com a ajuda do Criador !) 'Filha, vai em paz, a tua fé te salvou e sê curada deste teu mal"
Olá Cecília. Bom revê-la, mesmo que apenas virtualmente.
ExcluirAs informações desse texto são de quem "criou" as doenças. O que costumamos ver é a opressão, ou seja, a carga está maior do que se pode segurar. Normalmente isso acontece quando fazemos escolhas erradas ou estamos sem coragem para determinadas tomadas de decisão. Podemos pensar também na possibilidade de estarmos vivenciando sentimentos absolutamente humanos e, ao mesmo tempo, temos uma "equipe" condenando nossa bela e inevitável fragilidade humana.
Quando a fé... putzzzz... se com boa convivência com o Criador está difícil, imagine sem ele!
Obrigado pelos comentários e volte mais vezes.